sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Jacob

Eis que em pensamento formulo o tema
Me aprumo na mesa, escolho uma pena
Que mergulho em tinta e me ponho a traçar
Os vagos rabiscos se fazendo em cena
Sem frases, sem rimas, desenho o poema
Imagens na mente que é livre a vagar

Em universos de outros poetas me adentro
Modelando em sopros, tal dunas ao vento
Que traça incesso a paisagem futura
Fronteiras me cruzam em processo lento
Flutuam, se dobram, e me faço atento
Ao que elas revelam envolto em moldura

Me faço em tela ao pintor que assiste
Sua mente é livre, seu coração é triste
Seus olhos refletem a bela obra que cria
Pincel, que em imagem sopra seus medos
Razões e alegrias, pendendo em seus dedos
Enquanto nova chama seu rosto alumia
Mas não sabe ele o segredo que oculto
Pois do lado além, ele é apenas um vulto
Um retrato de Adolfo na parede de Sofia

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Jairo Morto

      Jairo Morto não gostava de seu nome. Razões óbvias. Em 1966, aos onze anos, pensava em mudá-lo, algum dia; mas ele nunca o faria. Quatro anos depois já se acostumara e logo estava até gostando.
      - Dead, seus amigos o chamavam; uns malandrinhos. Soava bem.
      Crescidos os bigodes, virou sr. Morto, Defunto para os íntimos, que eram poucos.
      Aos quarenta abandonou a gravata; aos cinquenta celebrou bodas de prata; noite passada, passeando sozinho pelo quintal, chocou-se fatalmente com um espinho vorpal.
      Acabava ali a importância de seu primeiro nome.